Quinta-feira, vinte para as sete da noite, no ônibus de volta para casa. O celular acende com um e-mail da sua gestora: “O cliente assinou. Foi a sua apresentação. Obrigada.”
Você lê duas vezes. Dois pontos depois já respondeu “Obrigado! Foi trabalho de equipe” e começou uma lista na cabeça: o slide que você terminou à meia-noite e o colega que mandou os números na segunda. Quando você desce, a história já foi reescrita. O cliente assinou por causa dos números e do bom humor na sala. Você só estava segurando o passador de slides.
Por baixo fica uma convicção silenciosa que parece honestidade. Eles me superestimam, e um dia alguém vai perceber. Chamar isso de modéstia parece mais seguro. O nome popular é síndrome do impostor, embora não seja um diagnóstico. O que vem a seguir é informação geral sobre uma experiência comum. Não faz diagnóstico e não substitui um médico ou um profissional de saúde mental.
Um contador que lança cada acerto na conta da sorte
Imagine um contador pequeno e muito caprichoso num escritório nos fundos da sua mente. Tudo o que acontece no trabalho passa pela mesa dele e vai para um livro-caixa. Os erros são fáceis de lançar: direto na coluna Provas. Os acertos demoram mais. O contador olha cada um contra a luz, franze a testa e guarda em outro lugar. Sorte. Ajuda dos outros. Foram gentis. Ninguém conferiu direito.
As psicólogas Pauline Rose Clance e Suzanne Imes descreveram essa contabilidade em 1978, no artigo que deu nome ao fenômeno do impostor. Em cinco anos, elas tinham trabalhado com mais de 150 mulheres de alto desempenho: estudantes com notas excelentes, mulheres com doutorado, profissionais respeitadas. Nada disso mudava o que elas pensavam de si mesmas. Alunas de pós-graduação atribuíam suas notas à sorte ou a um erro de correção. Uma professora disse às autoras: “Houve algum engano no processo seletivo.” Uma chefe de departamento dizia estar no cargo porque suas capacidades tinham sido superestimadas.
Aquela primeira amostra era formada principalmente por mulheres brancas de classe média e média alta, e as autoras deixam isso claro.
Se a voz do contador parece conhecida, ela é parente próxima do crítico interior. O crítico comenta tudo o que você faz. O contador tem uma função mais estreita: garantir que nada de bom seja creditado na sua conta.
Por que mais sucesso nunca fecha a conta
O remédio óbvio seriam mais provas. Conseguir a promoção, terminar o doutorado, fechar o próximo cliente, e as contas deveriam bater. Clance e Imes viram outra coisa. Suas clientes tinham medo de ser descobertas e por isso trabalhavam muito. O esforço trazia bons resultados e aprovação, depois um alívio curto. Aí o sucesso era lançado na conta do esforço, uma qualidade passageira, e a tarefa seguinte trazia o mesmo medo. As autoras chamam esse ciclo de autorreforçador, com um alívio que dura pouco porque a sensação de ser uma farsa continua intacta.
O slide da meia-noite, então, faz parte do truque. Cada madrugada que termina bem vira mais uma prova de que você só se sai bem quando se prepara em dobro, e o resultado vai para a conta de outra pessoa. Se o seu valor já se apoia no que você produz, você vai reconhecer a armadilha descrita no texto sobre autoestima que não depende de conquistas.
Quão comum é isso? Ninguém sabe com precisão. Uma revisão sistemática de 2020 no Journal of General Internal Medicine, liderada por Dena Bravata, reuniu 62 estudos com 14.161 participantes. Dependendo do questionário e do ponto de corte, entre 9% e 82% dos participantes relatavam sentimentos de impostor. Uma faixa tão larga diz muito sobre a dificuldade de medir. A revisão encontrou esses sentimentos em homens e mulheres, com taxas especialmente altas em minorias étnicas. Eles apareciam com frequência junto com depressão e ansiedade, e estavam associados ao burnout. São associações, então não dizem o que vem primeiro.
Tem mais uma coisa que o livro-caixa esconde. Em quatro estudos publicados em 2022 no Academy of Management Journal, Basima Tewfik, do MIT Sloan, estudou o que ela chama de pensamentos de impostor no trabalho, a crença de que os outros superestimam a sua competência. Em um dos estudos, médicos em formação que tinham esses pensamentos com mais frequência foram avaliados pelos pacientes como mais empáticos e melhores ouvintes. Nos estudos dela, isso não veio às custas do desempenho. Os mesmos pensamentos baixavam a autoestima, e ela diz que existem jeitos melhores de ficar bom com pessoas. Para o contador, porém, o resultado importa: nas amostras dela, quem se sentia uma farsa não tinha desempenho pior do que os outros.
Essa sensação é um instrumento de medida desregulado.
Onde essa sensação termina e começa outra coisa
Hoje o rótulo é colado em quase qualquer desconforto. A psicóloga clínica Bianca Denny, de Melbourne, em um texto no Guardian, separa o nervosismo comum (um emprego novo, um primeiro encontro) dos sentimentos de impostor. Ela reserva o termo para a dúvida sobre a própria capacidade e sobre merecer o próprio sucesso, construída numa comparação injusta. Um jogador de futebol amador que se sente inferior aos profissionais está lendo a realidade corretamente.
O ambiente onde você trabalha também conta. Se você é a primeira pessoa da família a chegar a um emprego assim, ou a única mulher à mesa, a dúvida pode se alimentar de sinais reais: quem é interrompido, de quem os erros são lembrados por anos. Conferir as próprias contas ajuda. Também é justo perceber quando é outra pessoa que está lançando itens na coluna Provas, e conversar sobre isso com gente de confiança.
Como fazer a auditoria
Você não pode demitir o contador. Pode começar a conferir os lançamentos. A síndrome do impostor não é um diagnóstico clínico e, como lembra Denny, não existe tratamento padronizado. A revisão de Bravata não encontrou nenhum estudo publicado que testasse um. As atitudes abaixo vêm da literatura clínica sobre o tema. São hábitos razoáveis, sem um ensaio clínico por trás.
Faça você o lançamento, no mesmo dia. Quando algo der certo, escreva duas linhas numa nota do celular: o que aconteceu e o que você fez que fez diferença. Deixe de fora o que os outros fizeram, porque disso o contador já cuida. “O cliente assinou. Refiz o slide de preços depois da pergunta deles na segunda.” Daqui a uns meses, essa nota é uma prova que o contador não conseguiu reescrever.
Diga obrigado, e pare aí. Clance e Imes notaram como suas clientes eram habilidosas em anular qualquer retorno positivo. Elas sugeriam treinar o contrário: ouvir, deixar o elogio entrar e tirar dele todo o alimento possível. Na prática: “Obrigado, que bom que funcionou”, sem a lista de quem ajudou. Se um colega merece crédito, diga isso a ele diretamente, em outra mensagem.
Conte o segredo para uma pessoa. Nos grupos conduzidos por Clance e Imes, quando uma mulher admitia que se sentia uma farsa, as outras admitiam também, aliviadas por não estarem sozinhas. Basta um amigo ou um colega de confiança. Pergunte “Você já sentiu que chegou aqui por engano?” em vez de “Minha apresentação ficou boa mesmo?”. A primeira pergunta abre os livros. A segunda pede reasseguramento, que segundo Denny traz um alívio passageiro e faz pouco pelas causas de fundo. Precisar que os outros confirmem o seu valor o tempo todo é o padrão que descrevemos no texto sobre a autoestima que precisa de plateia.
Faça um pequeno experimento com as horas extras. Escolha uma tarefa deste mês e prepare no nível normal, sem a hora a mais à meia-noite. Depois veja o que aconteceu. Se deu certo, esse lançamento é seu, porque a desculpa de sempre não está lá.
Quando buscar mais ajuda
Uma onda de dúvida num cargo novo é o desconforto comum de que Denny fala. Converse com um médico ou com um psicólogo se essa sensação começou a decidir por você: você vive recusando promoções ou projetos, ou há meses trabalha à noite e nos fins de semana para ninguém descobrir. Vale o mesmo se você nota um desânimo que não passa, ansiedade constante ou o esgotamento descrito no texto sobre as cinco fases do burnout. A revisão de Bravata encontrou sentimentos de impostor muitas vezes junto com depressão e ansiedade, e as duas têm tratamento. No SUS, a porta de entrada é a UBS. Se por fora está tudo bem e por dentro você sente um vazio, leia sobre depressão de alto funcionamento. Se você tem pensamentos de se machucar, procure agora os serviços locais de emergência ou ligue para o CVV no 188.
Pode ser mais fácil contar o segredo pela primeira vez a alguém que nunca viu o seu currículo e não conhece a sua gestora. O NoOneToTalk oferece escuta anônima entre pares, um lugar para dizer “todo mundo acha que eu sou bom nisso e eu acho que enganei todo mundo” sem ser avaliado. É um lugar para conversar. Não é terapia e não é tratamento médico.
De volta ao ônibus, o e-mail continua aberto. Antes de responder, escreva as duas linhas: o cliente assinou, e você refez o slide de preços depois da pergunta de segunda. Depois responda à sua gestora com poucas palavras. “Obrigado, Marta. Que bom que deu certo.”
Esse lançamento é seu.
Se você ou alguém que você conhece está em crise, peça ajuda. No Brasil, ligue para o CVV no número 188 (24 horas, gratuito). Diretório internacional: findahelpline.com.





